"É a meretriz que, de cabelos ruivos, Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos.



E a mulher, funcionária dos instintos,Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos, Gane instintivamente de luxúria."
Ódio, desprezo e agonia. Tudo misturado em uma só cor; a cor dos seus cabelos, que caiam revoltos e úmidos em torno da sua face avermelhada. Seus olhos verde-esmeralda estavam escuros e molhados das suas lágrimas que rolavam sem cessar, enquanto corria descalça pela estrada mal iluminada e lamacenta. O kimono branco rasgado e sujo colava em seu corpo, agora ensopado da chuva que começou a cair furiosamente sobre a cena. Uma cortina espessa que cobria seu rosto e se misturava com suas lágrimas quentes.
Genevieve era um fantasma em uma noite quente e chuvosa. Seus passos eram rápidos, mas trôpegos, mal podia ver o caminho por entre as casas de madeira e papel. Não sabia por onde estava indo, apenas corria e corria, mas incapaz de afastar-se da cena que havia presenciado e que se repedia em sua mente como um filme em cores.
E não apenas isso, ele – alguém que ela já não sabia mais nomear – corria atrás dela como uma criança corre para pegar a bola que escapou. O divertimento em sua voz era óbvio, a gula e a necessidade de crueldade eram como um ritual para ele. E cansando de brincar, ele a alcançou. Passando por ela e parando em sua frente tão abruptamente que ela não teve tempo de desviar ou parar, esbarrando nele e caindo de costas no chão. Foi como bater em uma parede de pedra. Genevieve teria gritado se a mão fria de Ivan não estivesse apertando sua garganta. Seus olhos eram suplicantes mesmo sem saber o que realmente estava para acontecer, se soubesse, teria suplicado pela morte.
Ivan tinha opiniões contraditórias a respeito de Genevieve. Ela era a criança que em outros tempos fora responsável por ele não ter se casado com a mãe dela, da qual ele amava profundamente. Depositando toda culpa nela, uma pequena criança, decidiu que a desprezaria e que a faria sofrer um dia. E hoje era esse dia. Mas hoje ela não era uma criança. Era jovem ainda, mas era uma mulher e seu desejo por ela só aumentou ao vê-la tão indefesa, as mãos delicadas segurando seus punhos de ferro, os olhos arregalados em desespero. Seu instinto sádico agitou-se dentro dele, e surgiu a idéia do que deveria fazer.
Genevieve agora era sua. Sua cria. Seu sangue. E assim seria pela eternidade. 
Dizem que os fantasmas são as almas daqueles que morreram de forma brutal e que retornam para se vingar ou para reivindicar algo que ainda julga ser seu; a vida. Essa descrição não é muito diferente daquilo que fazemos, ou é?


Minhas mãos estavam em volta de seu pescoço esguio e macio. Senti o suor se grudar em minha mão, escorrendo até o colarinho branco que havia esgarçado sem consciência minutos atrás. Não era para ter acabado assim, pensei. Henri era uma figura ilustre em seu mundo de homens de preto e colarinho branco. Sua beleza e dinheiro precediam sua fama de bom advogado. Ele era de fato o que chamam de ‘advogado do diabo’, e sua postura cética em relação ao mundo me atraiu por completo. Era um homem interessante até, inteligente, embora um pouco entediante. Ele, encostado na parede com as pernas de fora, e minha mão em seu pescoço. Repito, não queria que terminasse assim, porque acabaria ali, e ele via isso em meus olhos. Olhos que ele não conhecia até o momento.

Henri estava apenas de cuecas. É incrível como um pouco de álcool pode soltar até mesmo o nó mais apertado de uma gravata séria, assim como a imaginação. De fato, eu não imaginaria que aquela brincadeira poderia terminar em algo sério.

Estávamos em uma festa. Uma comemoração simples de algo sem importância, como muitas outras da qual encarei com evidente tédio. Mas a minha presença, imagino, pode inspirar a mais casta das mulheres ou homem, e aquela festa pendeu para uma orgia que enchia meus olhos de satisfação. Me senti como uma mãe loba, observando em gozo suas crias experimentarem pela primeira vez o gosto da caça. Não eram as minhas crias, nenhum deles representava alguma coisa para mim, mas é excitante ver como as coisas se transformam em poucos minutos, e o melhor, saber que você foi responsável por aquilo. E de alguma forma que não poderia imaginar, se não estivesse realmente acontecendo, Henri me acusou de amaldiçoá-lo com minha presença.
Lembro-me de tê-lo encarado. Mesmo sendo um cínico que ganha para mentir, Henri é como todos os homens, fáceis de serem lidos e conduzidos, mas eu tive de olhar mais de perto, e invadi sua mente – coisa que raramente fazia, como disse, não era necessário -, e ali estava a cena. Uma cena muito parecida com esta, aliás.

- Você é um imbecil curioso, Henri. – falei como uma namorada quando as coisas não andam bem, e isso o confundiu, mas ainda havia medo em seus olhos cinzas. A boca seca entreaberta, as narinas dilatadas. – Um imbecil muito bonito e muito curioso.

Não era um dia exatamente frio, mas seu corpo semi nu esfriava-se ao passo que o meu sentia apenas a carícia do vento que soprava com mais força ali em cima. Estávamos no terraço do prédio e a vista ali era linda. Paris parecia extremamente iluminada aquela noite.

Eu pretendia terminar com aquilo ali mesmo, sem mais preâmbulos, e estava pronta para isso naquele momento. Já sentia o gosto do seu sangue em minha boca – gosto que já conhecia –, o sabor inconfundível e quente. Estava me aproximando vagarosamente, mas parei no último instante, nas pontas dos pés, meio que debruçada sobre seu ombro e pescoço, como se fosse ele a me segurar em um simples abraço de amantes. Mas parei e não me movi mais.

Senti como se estivesse sendo observada.

Bem, foi muito rápido, muito rápido mesmo, embora a cena tenha se congelado para mim e cada segundo se esticasse como horas. Todos os pelos do meu corpo estavam ouriçados agora, em um instinto infalível. Mas minha pele arrepiada ouriçou-se ainda mais com o reconhecimento daquela presença. Como não poderia, era Lestat. De novo, Lestat.

E eu ri.

Pobre Henri. Aquela altura não compreendia mais nada, esperava apenas pelo seu fim que não chegava e eu agora estava rindo.

- Lestat! – pronunciei seu nome como se o estivesse vasculhando a mente em procura de uma imagem para ela, e continuei rindo. Aquela era a última cena que imaginaria compartilhar com ele, e isso me fazia rir.

Soltei Henri que escorreu pela parede com as pernas moles, ele ainda não tinha visto Lestat e nem eu. Mas eu sabia que estava ali, entre as sombras. Me virei para ele, com um amplo sorriso nos lábios. Um sorriso de boas vindas, mas carregando uma pergunta que não tive necessidade de fazê-la. “ O que faz aqui? ”

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