C'EST MA FAUTE
plus on attend, plus c'est dur d'avouer qu'on a tous les tords


Seu cabelo estava desalinhado devido ao vento que vinha do norte, soprando sem parar, sacudindo as copas das grandes árvores em volta do lago negro. Irelia tirou o cabelo da testa, mas não resolveu muito, que sacudiam como se tivessem vida própria, buscando desesperadamente se agarrar a alguma coisa. Ela olhava a superfície escura do lago, onde o hálito gélido do vento brincava criando ondas sobre sua superfície, levando pequenas gotículas consigo.
Seus olhos estavam parados, mas captava cada movimento a sua volta. Sentia o vento bater forte contra seu rosto, sua pele que se arrepiava com aquele contato intimo e profano, que lambia seu colo desnudo. Até mesmo o balançar do seu vestido colando-se em seu corpo. Prestava atenção a tudo, e sentia-se parte daquilo de uma forma diferente, como se sempre estivesse ali e pertencesse aquele lugar. Estava calma, sentia-se calma e interessada por aquela orquestra, que fazia as páginas do seu livro dançar com o vento.
Fazia um bom tempo que estava sentada ali. Buscara um lugar para ler ao ar livre, mas o vento era forte de mais e se irritou em ter de tirar os cabelos dos olhos a todo instante, até desistir para entrar naquele estado de torpor estranho. Tudo nela é estranho, pra não dizer insano.

 - Você demorou. - Não se virou para ver quem chegava. Não precisava, ela sabia quem era o dono dos passos que vinha quebrando os galhos e as folhas que começavam a cair, esperando pelo inverno que chegava rápido para cobri-las com neve e transformar aquele cenário em um deserto branco.

Arian.
Não era sempre que podiam se ver. Não era sempre que podiam se ver em privado. As paredes do castelo nunca são silenciosas o suficiente, e não guardam segredos. Sentia-se mais livre entre as árvores. Estava sentada no chão e ali permaneceu, sem desgrudar seus olhos do lago. O livro jogando ao seu lado. Sua mão esquerda segurava delicadamente seu pingente, enquanto a outra a mantinha equilibrada.
- Senti sua falta. - Suas palavras soaram baixas, roubadas pelo vento, mas havia um tom de desespero e urgência que não podia ser tirado dela.
- Me sinto em falta com você. Me sinto culpada.

Ela nunca havia falado sobre essas coisas com ele, sobre seus sentimentos. Sempre foi a figura madura e forte do qual ele precisava, um farol que sempre estaria acesso quando qualquer escuridão que caísse sobre ele. Um lugar onde ele pudesse fechar os olhos e se sentir protegido. Protegendo-o dos seus próprios medos. Medos que estavam ficando para trás, engolidos pelo passado, mas que ela evocava todas as noites em seus sonhos.

A memória é mesmo cômica. Brincando com as pessoas, guardando dentro delas as mais desprezíveis lembranças, enquanto se esquece de guardar os bons pensamentos. E a memória de Irelia é exatamente assim, embora quem a veja, não perceba devido à muralha de tróia que há em torno dela, alta e sarcástica que goza de você, rindo e te jogando pedras lá de cima.

Finalmente ela se levantou para encarar o irmão. A mão ainda abraçada ao pingente que carregava, contendo uma pequena caricatura em cores dele, que não se parecia nada com ele, na verdade.
- Você pode falar alguma coisa agora. - Levantou a mão para tocá-lo, mas decidiu não fazer e se sentiu idiota por isso.
Um momento de fraqueza.
Mas não podia ser fraca. Não para Arian, e não a sua frente. Era como se falhasse na missão mais importante da sua vida. A pessoa que mais importava e que praticamente resumia toda a sua existência, tinha que ser forte para não perdê-la. Para não perder Arian. E por mais que isso estivesse mais que longe de acontecer, ainda assim, sentia medo. 
Cárcere



- Não me odeie, anjinha, você não entende que estou apenas cumprindo ordens? Veja, você já foi uma de nós, você deve me compreender. Por favor, não me olhe assim…

Galadriel olhava para a ruiva aprisionada com extrema piedade nos olhos. Via força naquele ser mesmo fraco por tantos maus tratos em seus dias de aprisionamento. Dias não, foram longos anos. Ele chegara quando ela já estava confinada atrás das grades e com o tempo foi preciso acorrentá-la. Contaram-lhe que ela matara seus primeiros carcereiros, munida apenas das suas unhas, dentes e uma força gigantesca do qual poucos tinham conhecimento.

Era o que disseram. Isso lhe causava medo toda vez que entrava na cela portando comida. Uma vez acorrentada, ele era responsável em alimentá-la, nem que tivesse de dar-lhe na boca e forçá-la a engolir.

Mas Ariel não comia. Seu ódio a alimentava e transparecia em seus olhos esverdeados.

Certa vez pareceu demoníaca. Os olhos revirados mostravam apenas o branco do globo ocular. A boca aberta pronunciava a língua profana dos demônios. E ria. Seus risos eram ensurdecedores e obscenos. Rasgou a roupa e ofereceu seu corpo nu ao carcereiro, pedindo que a possui-se em troca da sua liberdade. O anjo carcereiro, mais assustado que excitado, correu e trancou a porta pesada rapidamente.

Naquele tempo eles apenas a guarneciam em um quarto sem janelas nos últimos andares dos prédios centrais de Paradísia. O Próprio Metraton pode constatar que já não bastava.

- O que faz que tanto assusta os seus servos? – Metraton havia entrado no quarto fechando a porta atrás de si, fingindo não estar surpreso com aqueles grandes olhos estranhamento negros olhando-o com perfídia sacanagem que agora se estampava em um amplo sorriso.

Ariel estava inteiramente nua. As pernas cruzadas escondia seu sexo. Meio sentada, meio deitada em uma poltrona no centro da sala ela o encarava. Os cabelos soltos emoldurando seu rosto zombateiro. Seus seios eram um convite.

Ela olhou para o lado, como se a pergunta não fosse para ela, e com um riso baixo, interno, voltou a olhá-lo.

- Nada. Acha que estou fazendo algo?

Metraton deu alguns passos para frente, mas pensando melhor, voltou ao seu lugar e de braços cruzados fixou o olhar nela, estudando-a atenciosamente. Vendo sua hesitação ela se levantou e caminhou com a maestria de uma dançarina em um palco. Suave, sedutora e perigosa. O abraçou.

- Acha que estou fazendo algo, Metraton, meu amor?

Ele tentou forçá-la para trás, porém os braços que o envolviam eram mais fortes, no entanto leves. Riu por um instante.

- Ariel, Ariel, ambos sabemos que demônios não podem possuir seres como nós. Não quer que eu acredite que demônios tomam seu corpo.

- E porque não acreditar que eu possa dominar o seu? – Ela falou em um tom rouco, sério e soltou-o voltando a se sentar na poltrona na mesma posição de quando ele entrara.

- Deixe-me!

Ela estava imperiosa. Não parecia um anjo. Um demônio, ou uma humana. Ela não se parecia com nada que ele pudesse imaginar. Não via nada nela. Tão pouco desejo por sua carne. Ela apenas fazia parte do seu plano e sabia que ela tinha ciência de tal.

Deixou o quarto reforçando a guarda com estritas ordens de quem ninguém entrasse no quarto.

Ele havia subjugado a sua força.

A diferença de Galadriel para os outros é que ele via nela uma aura. Uma aura rosácea e intensa que às vezes tremeluzia e ficava mais forte, vermelho sangue. Na verdade era o contrário. A luz rosa, ele apenas viu nos primeiros dias. Era como se algo a dominasse dia a dia. Um ódio de tudo e de si mesma. E isso a consumia. Consumia a sua mente e alimentava a alma. Estava tão vazia quando um vaso, mas inteira externamente e forte. Como se nada pudesse atingir seu interior. Ele sentia profunda pena dela.

- Não me olhe assim, seu porco. No fim sabe que vai morrer como os outros. – ela riu de cabeça baixa, apenas o brilho intenso dos seus olhos no escuro através da cortina de cabelos vermelhos.

- Não, Ariel. No fim sabemos que todos vamos morrer.

O estranho é que, ele realmente acreditava nisso.
Julgamento

Metraton erguia-se imperialmente sobre todos no grande salão oval. Vestido apenas com uma longa tanga branca de pregas presa em um cinto em sua cintura firme. As asas abertas, os cabelos um pouco caídos sobre os olhos escondiam um intenso brilho. Um brilho de vitória, de orgulho de si mesmo. Pedia silêncio em uma voz rouca, um tanto… diabólica. 

- Quieeeeeetoooss!!! Estamos em um julgamento. – Isso mais parece com um chiqueiro, pensou Metraton. Sentia um asco superficial por aqueles presentes. Uma platéia para ver o julgamento de uma recém caída. Ele a faria cair.

 Ariel.

Metraton nunca foi de muita paciência, mas esforçava-se para prolongar aquela cena ao máximo. Queria humilhar a mulher de joelhos no centro do salão. Acorrentada pelas mãos, exigiu aos soldados que a mantivessem naquela posição. Estava em evidente gozo.

- Ariel! – Falou seu nome quando não se ouvia mais nada além do bater de asas agitadas. Ela nem sequer o olhou. Fitava o chão. O zigue-zague que o mosaico fazia, formando um imenso desenho sob seus joelhos doloridos. Também não respondeu.

- Sabe o motivo, o principal motivo pelo qual foi trazida aqui, Ariel?

Novamente, só o silêncio emanava de si. Era como se não estivesse ali. O corpo presente, mas sua alma flutuava por outros cenários.

Outros tempos.

“Dois anjos conversavam frente à porta. Anjos guerreiros, que vestiam todo o uniforme, além da espada embainhada pendendo presa à cintura.

 - Porque estamos aqui?

- Ele está aqui e está preso. Chama por ela, mas ela não pode ir, e não deve sair daqui. Não importa o que fará, detenha-na aqui. Ela não pode sair.

- E porque não? Ela está fraca. Há dias está assim. Não irá a parte alguma mesmo que queira. E jamais irá atrás do traidor. Conheço a história deles… ela já não lembra do seu nome.

-Se conhecesse a história, deveria saber que ela iria… 

_ … sempre irei. – Ariel avançou para eles saindo para a luz dos archotes. Em seus olhos outra luz brilhava, chamejante como quando as brasas são agitadas em uma lareira. Crepitavam de ódio. Sempre o ódio. Era parte dela, e ela usava-o constantemente. E como não poderia? Tudo foi-lhe arrancado em um único golpe, e da mesma forma ela desejava fazer com todos. Um único golpe.. Único e preciso que tirou a vida dos dois anjos.

Escondeu seus corpos dentro da casa, ciente de que ninguém entraria ali. Lavou as mãos, e antes de sair, lançou um ultimo olhar as paredes tingidas em tom escuro. Sabia que não voltaria a por os pés nela novamente e de forma estranha, sentiu que fazia a coisa certa. Estava indo resgatar Haziel.”

- Quanta ousadia ou talvez seja apenas covardia. Ordeno que me olhe, Ariel. Sua insolência ultrapassa limites, mas não terei compaixão por você, crianççç…

Um isso baixo cortou a frase de Metraton.

- E algum dia da sua insignificante vida já sentiu compaixão por alguém? – Ela ria divertida. Olhava-o agora, por trás das madeixas ruivas que caiam volumosas sobre sua face alva. -  Por Miguel não sentiu.

Mal terminou as palavras e notou a besteira que havia feito. Acusar um Serafim era um ato de extremo risco, mesmo que indiretamente. Mas Ariel não se arrependeu das palavras, apenas voltou a fitar o mosaico.

Metraton fingiu não ter ouvido o fim da frase, mas sua raiva fervilhou dentro de si. Anjo insolente, pensou. Mas ele não odiava Ariel, apesar dela tê-lo atrapalhado em seus planos no passado, ele não a odiava e com o tempo, acreditou que ela seria a chave para ter Haziel sobre o seu domínio, uma vez que não conseguia fazer isso pelas armas.

- Suas tolas palavras só pioram sua situação, Anjo. Que inicie o julgamento.

- Iniciar? Porque perder tempo, Metraton, com um julgamento que já sabemos a sentença. – Pela primeira vez Ariel a viu falar. De pele tão alva quanto a sua e cabelos claros quase brancos, Lelahel, se levantara de uma cadeira coloca nas sombras dos pilares.

Caminhou graciosamente até o centro do salão e tocou nos cabelos de Ariel.

- Você pode gostar de teatro, mas este aqui não lhe servirá para satisfazer o gozo. Levem-na. – Voltou-se para Ariel, de pé sustentada pelos guardas. -  A julgo culpada.

Com essas palavras voltou para o seu lugar parando antes ao lado de Metraton.

- Não pense que sou idiota para não saber o que deseja com a garota, portanto não tente me usar em seus joguinhos de xadrez. Não farei parte do seu plano.

***

Ao contrário do que pensava, foi deixada em um dos quartos da torre. A porta muito bem guardada. Finalmente deixou-se relaxar. Caindo no chão frio, abraçando os joelhos com as mãos, fechou os olhos e se lembrou das palavras que disse a Haziel antes do ato que os separariam para sempre e ao mesmo tempo os uniria em alma, uma vez mais.

 “- Estou fadada a você, assim como você está ao inferno. – Ela falara sem olhá-lo nos olhos. Um pouco envergonhada, um pouco culpada. Sabia que ele estava ali por ela.

 Arrebentando aquelas correntes estava selando o seu exílio de Paradísia. Não se importava. Nada no mundo, em qualquer plano, era importante. Nem mesmo sua vida…”
the poet and the muse
the poet came down to the lake, to call out to his dear. and only his own echowould wail back at his call




 A água parecia incrivelmente perturbada, apesar da ausência de vento. Rowan a olhava como se cada uma das pequenas ondas falasse com ela, cantando uma música diferente a cada vez que batiam nas pedras na margem do lago. Sentia uma certa sincronia com ele, como lago, e perturbadoramente isso lhe era aconchegante. Como encontrar a única pessoa que entende você, que fala com você usando as palavras que quer ouvir, e o lago negro falava com ela em notas claras de respingos frios.

Havia chovido aquela manhã, e o frio havia congelado a grama, e naquele ponto onde o sol não chegava ainda havia branco por todo o lado, uma fina camada de gelo que Rowan deixava descongelar na palma na sua mão, arrancando mais e mais folinhas sem nem mesmo perceber as pontas roxas dos seus dedos. Mas nem sequer sentia o frio. Seu casaco estava no chão e ela sentada sobre ele. O vestido vermelho lhe cobrindo as pernas, oferecendo algum calor, mas seus ombros estavam completamente expostos. Ela não queria sentir o calor. Não queria sentir nada, especialmente aquela angustia que vem martelando-a por semanas, noite e dia.
 Por dias ela sonhava com o irmão, ou pelo menos acreditava ser ele. Uma criança de cabelos ruivos tal qual o seu, mas com uma tonalidade mais vibrante, como se irradiasse sua própria luz, seu próprio calor. E ele apenas sorria, parecendo apenas esperar por ela, e isso era o que mais a incomodava, a ausência de gestos. Ausência de tudo se não aquela longa espera.
 Rowan olhava para o lago enquanto pensava nisso. Estava completamente absorvida em seus pensamentos que não podia mais distinguir o que era o mundo a sua volta e o mundo caótico da sua mente perturbada. Por isso não sentia frio. Seu corpo era meramente um suporte, algo a parte que não fazia parte dela absolutamente, apenas a sustentava de uma forma alheia, quase apática, mas obediente.

 Ordenou a seu corpo que ficasse em pé, e aos poucos foi ficando mais alta. Ordenou a seu corpo que andasse, e aos poucos seus pés estavam mergulhados na água.
Em sua inconsciência ela sonhava de olhos abertos, e não podia dizer se era sonho, mas acreditava que sim pela falta de sentido de tudo - os sonhos não tem sentido, afinal. Rowan olhava para a superfície ondulada do lago, apesar de não estar parado ela via através da sua turvez, como se fosse cristalina, a água. E lá no fundo o menino de cabelos vermelhos, sorrindo para ela, a mão estendida, chamando-a. Pela primeira vez a chamava. Pronunciando seu nome sem abrir os lábios, e mesmo assim sua voz ecoava, levada em ondas até Rowan. A água já batia em sua cintura. Sua mão estendida para tocar aqueles pequenos dedinhos brancos que pareciam tão finos e frágeis que sentiu pena, sentiu vontade de tocá-los e levar até seus lábios para aquecê-los com um beijo.
 Mas foi obrigada a desistir dele, da sua figura que parecia se apagar aos poucos, sendo engolido pela água. Mas quem estava sendo engolida era ela. No plano real do qual estava completamente alheia, havia pisado em uma pedra, se desequilibrado a fundando na água. Quando voltou a tona estava completamente consciente, e agora o frio lhe penetrava como facas por todo o corpo, rasgando sua pele imperdoável. Soltou um grito alto e agudo em resposta ao seu desespero. Arrastava-se de volta para a margem, mas seu vestido pesado pela água mantinha lenta a sua marcha. Uma mancha vermelha em meio ao nada.
  Não havia perigo em se afogar ali, a água nem sequer batia em seu peito - apenas o frio era cortante - mas havia terror em seus olhos. Terror por não saber o que aconteceu exatamente. Como parara no meio das águas escuras do lago negro? Terror de suas visões atormentadoras. Terror porque queria vê-lo novamente, o menino. Queria poder chegar até ele. Lhe dar a mão. Mas a água em seu nariz lhe dizia que era impossível.





and when he swore to bring back his love, by the stories hed create, 
nightmares shifted endlesslyin the darkness of the lake.