Julgamento
Metraton erguia-se imperialmente sobre todos no grande salão oval. Vestido apenas com uma longa tanga branca de pregas presa em um cinto em sua cintura firme. As asas abertas, os cabelos um pouco caídos sobre os olhos escondiam um intenso brilho. Um brilho de vitória, de orgulho de si mesmo. Pedia silêncio em uma voz rouca, um tanto… diabólica.
- Quieeeeeetoooss!!! Estamos em um julgamento. – Isso mais parece com um chiqueiro, pensou Metraton. Sentia um asco superficial por aqueles presentes. Uma platéia para ver o julgamento de uma recém caída. Ele a faria cair.
Ariel.
Metraton nunca foi de muita paciência, mas esforçava-se para prolongar aquela cena ao máximo. Queria humilhar a mulher de joelhos no centro do salão. Acorrentada pelas mãos, exigiu aos soldados que a mantivessem naquela posição. Estava em evidente gozo.
- Ariel! – Falou seu nome quando não se ouvia mais nada além do bater de asas agitadas. Ela nem sequer o olhou. Fitava o chão. O zigue-zague que o mosaico fazia, formando um imenso desenho sob seus joelhos doloridos. Também não respondeu.
- Sabe o motivo, o principal motivo pelo qual foi trazida aqui, Ariel?
Novamente, só o silêncio emanava de si. Era como se não estivesse ali. O corpo presente, mas sua alma flutuava por outros cenários.
Outros tempos.
“Dois anjos conversavam frente à porta. Anjos guerreiros, que vestiam todo o uniforme, além da espada embainhada pendendo presa à cintura.
- Porque estamos aqui?
- Ele está aqui e está preso. Chama por ela, mas ela não pode ir, e não deve sair daqui. Não importa o que fará, detenha-na aqui. Ela não pode sair.
- E porque não? Ela está fraca. Há dias está assim. Não irá a parte alguma mesmo que queira. E jamais irá atrás do traidor. Conheço a história deles… ela já não lembra do seu nome.
-Se conhecesse a história, deveria saber que ela iria…
_ … sempre irei. – Ariel avançou para eles saindo para a luz dos archotes. Em seus olhos outra luz brilhava, chamejante como quando as brasas são agitadas em uma lareira. Crepitavam de ódio. Sempre o ódio. Era parte dela, e ela usava-o constantemente. E como não poderia? Tudo foi-lhe arrancado em um único golpe, e da mesma forma ela desejava fazer com todos. Um único golpe.. Único e preciso que tirou a vida dos dois anjos.
Escondeu seus corpos dentro da casa, ciente de que ninguém entraria ali. Lavou as mãos, e antes de sair, lançou um ultimo olhar as paredes tingidas em tom escuro. Sabia que não voltaria a por os pés nela novamente e de forma estranha, sentiu que fazia a coisa certa. Estava indo resgatar Haziel.”
- Quanta ousadia ou talvez seja apenas covardia. Ordeno que me olhe, Ariel. Sua insolência ultrapassa limites, mas não terei compaixão por você, crianççç…
Um isso baixo cortou a frase de Metraton.
- E algum dia da sua insignificante vida já sentiu compaixão por alguém? – Ela ria divertida. Olhava-o agora, por trás das madeixas ruivas que caiam volumosas sobre sua face alva. - Por Miguel não sentiu.
Mal terminou as palavras e notou a besteira que havia feito. Acusar um Serafim era um ato de extremo risco, mesmo que indiretamente. Mas Ariel não se arrependeu das palavras, apenas voltou a fitar o mosaico.
Metraton fingiu não ter ouvido o fim da frase, mas sua raiva fervilhou dentro de si. Anjo insolente, pensou. Mas ele não odiava Ariel, apesar dela tê-lo atrapalhado em seus planos no passado, ele não a odiava e com o tempo, acreditou que ela seria a chave para ter Haziel sobre o seu domínio, uma vez que não conseguia fazer isso pelas armas.
- Suas tolas palavras só pioram sua situação, Anjo. Que inicie o julgamento.
- Iniciar? Porque perder tempo, Metraton, com um julgamento que já sabemos a sentença. – Pela primeira vez Ariel a viu falar. De pele tão alva quanto a sua e cabelos claros quase brancos, Lelahel, se levantara de uma cadeira coloca nas sombras dos pilares.
Caminhou graciosamente até o centro do salão e tocou nos cabelos de Ariel.
- Você pode gostar de teatro, mas este aqui não lhe servirá para satisfazer o gozo. Levem-na. – Voltou-se para Ariel, de pé sustentada pelos guardas. - A julgo culpada.
Com essas palavras voltou para o seu lugar parando antes ao lado de Metraton.
- Não pense que sou idiota para não saber o que deseja com a garota, portanto não tente me usar em seus joguinhos de xadrez. Não farei parte do seu plano.
***
Ao contrário do que pensava, foi deixada em um dos quartos da torre. A porta muito bem guardada. Finalmente deixou-se relaxar. Caindo no chão frio, abraçando os joelhos com as mãos, fechou os olhos e se lembrou das palavras que disse a Haziel antes do ato que os separariam para sempre e ao mesmo tempo os uniria em alma, uma vez mais.
“- Estou fadada a você, assim como você está ao inferno. – Ela falara sem olhá-lo nos olhos. Um pouco envergonhada, um pouco culpada. Sabia que ele estava ali por ela.
Arrebentando aquelas correntes estava selando o seu exílio de Paradísia. Não se importava. Nada no mundo, em qualquer plano, era importante. Nem mesmo sua vida…”
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