Cárcere



- Não me odeie, anjinha, você não entende que estou apenas cumprindo ordens? Veja, você já foi uma de nós, você deve me compreender. Por favor, não me olhe assim…

Galadriel olhava para a ruiva aprisionada com extrema piedade nos olhos. Via força naquele ser mesmo fraco por tantos maus tratos em seus dias de aprisionamento. Dias não, foram longos anos. Ele chegara quando ela já estava confinada atrás das grades e com o tempo foi preciso acorrentá-la. Contaram-lhe que ela matara seus primeiros carcereiros, munida apenas das suas unhas, dentes e uma força gigantesca do qual poucos tinham conhecimento.

Era o que disseram. Isso lhe causava medo toda vez que entrava na cela portando comida. Uma vez acorrentada, ele era responsável em alimentá-la, nem que tivesse de dar-lhe na boca e forçá-la a engolir.

Mas Ariel não comia. Seu ódio a alimentava e transparecia em seus olhos esverdeados.

Certa vez pareceu demoníaca. Os olhos revirados mostravam apenas o branco do globo ocular. A boca aberta pronunciava a língua profana dos demônios. E ria. Seus risos eram ensurdecedores e obscenos. Rasgou a roupa e ofereceu seu corpo nu ao carcereiro, pedindo que a possui-se em troca da sua liberdade. O anjo carcereiro, mais assustado que excitado, correu e trancou a porta pesada rapidamente.

Naquele tempo eles apenas a guarneciam em um quarto sem janelas nos últimos andares dos prédios centrais de Paradísia. O Próprio Metraton pode constatar que já não bastava.

- O que faz que tanto assusta os seus servos? – Metraton havia entrado no quarto fechando a porta atrás de si, fingindo não estar surpreso com aqueles grandes olhos estranhamento negros olhando-o com perfídia sacanagem que agora se estampava em um amplo sorriso.

Ariel estava inteiramente nua. As pernas cruzadas escondia seu sexo. Meio sentada, meio deitada em uma poltrona no centro da sala ela o encarava. Os cabelos soltos emoldurando seu rosto zombateiro. Seus seios eram um convite.

Ela olhou para o lado, como se a pergunta não fosse para ela, e com um riso baixo, interno, voltou a olhá-lo.

- Nada. Acha que estou fazendo algo?

Metraton deu alguns passos para frente, mas pensando melhor, voltou ao seu lugar e de braços cruzados fixou o olhar nela, estudando-a atenciosamente. Vendo sua hesitação ela se levantou e caminhou com a maestria de uma dançarina em um palco. Suave, sedutora e perigosa. O abraçou.

- Acha que estou fazendo algo, Metraton, meu amor?

Ele tentou forçá-la para trás, porém os braços que o envolviam eram mais fortes, no entanto leves. Riu por um instante.

- Ariel, Ariel, ambos sabemos que demônios não podem possuir seres como nós. Não quer que eu acredite que demônios tomam seu corpo.

- E porque não acreditar que eu possa dominar o seu? – Ela falou em um tom rouco, sério e soltou-o voltando a se sentar na poltrona na mesma posição de quando ele entrara.

- Deixe-me!

Ela estava imperiosa. Não parecia um anjo. Um demônio, ou uma humana. Ela não se parecia com nada que ele pudesse imaginar. Não via nada nela. Tão pouco desejo por sua carne. Ela apenas fazia parte do seu plano e sabia que ela tinha ciência de tal.

Deixou o quarto reforçando a guarda com estritas ordens de quem ninguém entrasse no quarto.

Ele havia subjugado a sua força.

A diferença de Galadriel para os outros é que ele via nela uma aura. Uma aura rosácea e intensa que às vezes tremeluzia e ficava mais forte, vermelho sangue. Na verdade era o contrário. A luz rosa, ele apenas viu nos primeiros dias. Era como se algo a dominasse dia a dia. Um ódio de tudo e de si mesma. E isso a consumia. Consumia a sua mente e alimentava a alma. Estava tão vazia quando um vaso, mas inteira externamente e forte. Como se nada pudesse atingir seu interior. Ele sentia profunda pena dela.

- Não me olhe assim, seu porco. No fim sabe que vai morrer como os outros. – ela riu de cabeça baixa, apenas o brilho intenso dos seus olhos no escuro através da cortina de cabelos vermelhos.

- Não, Ariel. No fim sabemos que todos vamos morrer.

O estranho é que, ele realmente acreditava nisso.

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